Sexta da Saúde | A pele em alerta: como o inverno seco de Brasília agride sua maior proteção — e o que fazer para defendê-la

Com umidade que pode cair a 12% e temperatura que já oscila mais de dez graus entre manhã e tarde, o DF é um dos piores ambientes do Brasil para a saúde da pele. Ressecamento, dermatites e psoríase se agravam nesta época — mas a prevenção é simples e acessível

Você já acordou com a pele repuxada, os lábios rachados ou sentindo aquela coceira persistente que não passa? Se sim, bem-vindo ao inverno de Brasília — a estação em que a maior proteção do seu corpo começa a pedir socorro.

A pele é o maior órgão do corpo humano e a primeira linha de defesa contra vírus, bactérias, agressores químicos e variações de temperatura. Mas para funcionar bem, ela precisa estar íntegra — hidratada, com sua barreira natural preservada. E é exatamente isso que o inverno seco do Cerrado ameaça todos os anos, com uma força que poucos lugares do Brasil conseguem rivalizar.

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em setembro de 2024 a umidade relativa do ar na capital federal chegou a ficar abaixo de 12% em alguns dias — enquanto a OMS recomenda níveis entre 40% e 60% para a saúde humana. E maio já é o mês em que esse processo começa. Esta semana, com mínimas de 13°C e máximas de 26°C, a amplitude térmica diária já passa de dez graus — e a pele sente cada grau dessa diferença.

O que acontece com a pele quando a umidade cai

A biologia é simples, mas o impacto é expressivo. Ao longo do dia, a pele perde água para o ambiente por um processo chamado transpiração insensível — e quanto mais baixa a umidade do ar, maior essa perda. Quem tem tendência a ter pele, unhas e cabelos ressecados sofre ainda mais, já que as células da epiderme ficam desestruturadas.

Durante o inverno, a umidade do ar baixa e as temperaturas mais frias levam à diminuição da transpiração corporal. Esses fatores fazem com que a pele fique mais seca. Nessa época também é comum os banhos serem mais quentes, o que provoca uma remoção da oleosidade natural de forma mais intensa, diminuindo o manto lipídico que retém a umidade da pele.

O resultado visível: a pele do rosto e do corpo podem adquirir aspecto esbranquiçado, o que indica a desnaturação das proteínas. Tanto a pele do rosto quanto a do corpo estão sujeitas a esse processo. O ressecamento não é apenas estético — uma pele desidratada fica mais suscetível a infecções e dermatites, pois perde a capacidade de atuar como barreira de proteção.

Há ainda um agravante que muita gente não associa ao inverno: a combinação de baixa umidade do ar com temperaturas mais altas no chuveiro acelera a perda de água e de óleos essenciais, deixando a pele vulnerável a desconfortos como o ressecamento, as fissuras e até o agravamento de quadros de eczema.

As doenças que explodem no inverno brasiliense

O ressecamento comum é incômodo mas manejável. O problema se agrava quando ele desencadeia — ou piora — condições dermatológicas que afetam milhões de brasileiros.

Dermatite atópica — aproximadamente 7% dos adultos brasileiros vivem com a dermatite atópica, e entre 15% e 25% das crianças do país são acometidas pela condição. A doença tende a se agravar no inverno devido à baixa umidade do ar, banhos quentes, ambientes aquecidos e até mesmo roupas de lã e tecidos sintéticos, que em atrito com a pele podem irritá-la e ocasionar lesões. O principal sintoma é a coceira intensa, que pode começar antes mesmo das lesões cutâneas se manifestarem.

Psoríase — segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), cerca de 5 milhões de brasileiros são acometidos pela psoríase, principalmente na faixa etária entre 30 e 40 anos e entre 50 e 70 anos, sem distinção de gênero. A condição se manifesta com placas espessas e descamativas e tende a piorar significativamente com o frio e o ar seco.

Dermatite seborreica — ocorre principalmente nas regiões que contêm pelos, como face e couro cabeludo. É uma descamação da pele causada pela desregulação sebácea, com manifestações frequentes de intensa produção de oleosidade, descamação e coceira — podendo causar caspa que varia desde fina até a formação de grandes crostas aderidas ao couro cabeludo.

Acne de inverno — segundo a SBD, é comum observar uma piora nos casos de acne durante o inverno. Isso ocorre porque o ressecamento da pele pode estimular as glândulas sebáceas a produzirem mais sebo, o que aumenta a obstrução dos poros e favorece o surgimento de cravos e espinhas. Quem tem pele oleosa não está protegido — pelo contrário.

O inimigo oculto: o banho quente

Esta é, talvez, a armadilha mais comum do inverno. No frio, o banho quente parece um prazer irresistível — e é exatamente aí que mora o problema. Banhos muito quentes removem a camada de proteção natural da pele, piorando o ressecamento. Banhos rápidos e mornos são mais indicados, segundo a dermatologista Amália Coutinho, especialista pela SBD e pela UnB.

A orientação dos especialistas é clara: o banho não precisa ser frio, mas não deve ser escaldante. Água morna, tempo reduzido e sabonete apenas nas áreas necessárias. É recomendável evitar o uso de sabonetes em excesso, restringindo a aplicação às axilas, região íntima e pés, e não utilizar buchas ou esfoliações frequentes durante o inverno.

Cuidados práticos para proteger a pele no inverno do DF

As medidas preventivas são simples, acessíveis e fazem diferença real já a partir de hoje:

Hidrate imediatamente após o banho — aplique o hidratante corporal ainda com a pele levemente úmida, para selar a água na superfície. A Sociedade Brasileira de Dermatologia reforça a importância de hidratantes com componentes como manteiga de karité, ácido hialurônico ou ureia. Evite produtos com fragrâncias e corantes, que podem irritar a pele sensibilizada pelo frio.

Beba mais água do que você acha que precisa — manter a ingestão adequada de água é extremamente importante para conservar a hidratação da pele e de todo o organismo, que naturalmente fica debilitado pelo clima frio. O ar seco do Cerrado engana: você perde água sem perceber, e a sede nem sempre aparece a tempo.

Use roupas de algodão diretamente na pele — o ideal é usar sobre a pele tecidos de algodão, evitando roupas com tecidos ásperos como a lã, que podem irritar e ocasionar lesões especialmente em quem tem dermatite ou psoríase.

Umidifique os ambientes — use umidificador de ar em casa e no trabalho, especialmente no quarto durante o sono. Na ausência do aparelho, uma bacia com água próxima ao ambiente ajuda a elevar a umidade local.

Não negligencie o protetor solar — muita gente acha que o inverno dispensa proteção solar. Erro grave. A radiação UV continua intensa no DF mesmo nos meses mais frios e secos, e a pele ressecada é ainda mais vulnerável aos seus efeitos. Use protetor diariamente, inclusive em dias nublados.

Atenção ao couro cabeludo — caspa, coceira e seborreia são queixas que explodem no inverno brasiliense. Use shampoos adequados para o seu tipo de couro cabeludo e evite lavagens excessivas, que retiram os óleos naturais protetores.

Quando ir ao dermatologista

Se mesmo com esses cuidados a pele continuar muito seca, com rachaduras, vermelhidão, coceira intensa ou sinais de infecção, é essencial procurar um médico dermatologista. Pessoas com diagnóstico de dermatite atópica ou psoríase devem seguir rigorosamente o tratamento indicado pelo especialista, pois essas condições podem se agravar significativamente no frio.

No Distrito Federal, consultas dermatológicas pelo SUS podem ser agendadas nas Unidades Básicas de Saúde de cada região administrativa. Para condições crônicas como psoríase e dermatite atópica, os ambulatórios especializados dos hospitais da rede SES-DF oferecem acompanhamento continuado.

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